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Francisco de Sousa Pereira Barbosa
Dados pessoais, infância, escolaridade
O meu nome é Francisco de Sousa Pereira Barbosa, nasci a 24 de Setembro de 1929.
Sou natural da freguesia de Vila Cova de Carros, a freguesia mais
pequena do concelho de Paredes, onde vivi até aos 22 anos. Dos 22 aos 24
vivi na Vila de Paredes, depois aos 24 fui para Ermesinde onde ainda estive
uns tempos. Depois vim definitivamente para o Porto.
O meu pai era trabalhador agrícola e a minha mãe era doméstica e no verão
trabalhava alguns dias nos campos, à jorna. Nenhum deles frequentou a
escola.
Eu completei a 3ª classe, ainda criança, depois voltei a estudar aos 23 anos
para completar a 4ª classe. Tenho 3 irmãs, mas só a mais nova delas, mais
velha do que eu 8 anos, é que ainda fez a 2ª classe. As outras não estudaram.
Lá em casa as dificuldades eram muitas mas o que não podia faltar era a
religião, a missinha. Pão faltava muito. Por isso ainda muito pequeno, ainda
andava na escola, comecei a guardar as ovelhas no monte. Por vezes aparecia
o senhor Dr.Acácio para nos multar. Para me defender e fugir às multas
comecei a inventar nomes e moradas. Os donos das matas apanhavam-nos,
perguntavam-nos o nome do pai e da mãe e a morada, e eu inventava. Depois
levavam lá os autos para se pagarem as multas e descobriam que essas
pessoas não existiam.
Actividade Profissional
Aos 11 anos fui trabalhar como moço de lavoura. Viviam-se momentos muito
difíceis, com a II Guerra Mundial. Lá tinha mesa, cama e roupa lavada, e pouco
mais. Ganhava 300$00 por ano.
Depois comecei a ver que aquilo não era vida e, em 1944, fui para aprendiz de marceneiro, numa freguesia próxima, chamada de Duas Igrejas. Mas tinha que
estar lá a aprender durante 6 meses, sem receber nada. Ao fim de 3 meses já
não suportava mais e saí. Mudei de patrão, fui trabalhar para um vizinho dele a
25 tostões por dia, que já me dava para comer uma fatia de pão. Algum tempo
depois comecei a trabalhar à peça.
Mas eu não conseguia adaptar-me àquele tipo de trabalho, era muito preso,
tinha de ficar naquele bocadinho durante 8, 10, 12 horas por dia.
Ainda andei com um tio a trabalhar de carpinteiro. Era uma sociedade de pai e
filho: o meu tio era o mestre mas o filho é que era o chefe. Entretanto faliram
por falta de trabalho e eu voltei para a marcenaria.
Aos 25 anos, já depois da tropa, comecei a trabalhar por conta própria, mas
aquilo começou a não resultar e fui parar à Rebordosa, a casa de um tal de
Joaquim Moreira dos Santos. Era uma fábrica de serração de madeira, com
cerca de 60, 70 operários, e uma secção pequena de marcenaria, onde
trabalhávamos uns 12. Nessa altura ganhava uns 20, 23$00 por dia. Éramos
pagos à semana, e trabalhávamos de segunda a sábado, das 8h às 5h da
tarde. Se falhasse duas horas já não ganhava o dia. Logo que entrei fui
sindicalizado, porque o filho do patrão é que era o presidente do
Sindicato dos Marceneiros. Eu não percebia nada de leis, nem sabia que os sindicato tinha
interferência com os trabalhadores. Só fiquei a saber porque precisei de um
bilhete de identidade com uma profissão, quando estava para vir para os
STCP, em 1958, e foi o presidente do sindicato que me deu um documento
com a profissão para eu apresentar no registo civil.
Eu casei em Maio de 1954. O meu sogro tinha um sobrinho que era engenheiro
nos STCP, e ele é que me fez o requerimento para eu ir trabalhar para lá. Não
me chamaram logo, só quando começou a aumentar a emigração é que eles
me escreveram um postal para eu aparecer.
Nos STCP trabalhava nas Oficinas Gerais da Boavista, como carpinteiro.
Éramos mais de 30 carpinteiros, só a trabalhar nos eléctricos. Quando entreve
um eléctrico para reparação só se aproveitava o que estava bom, tudo o resto
era deitado ao lixo e feito de novo. Trabalhávamos 8 horas por dia. Acabei por
não vir ganhar muito mais porque, como tinha de voltar todos os dias para
Paredes, o dinheiro que gastava em transportes acabava por me diminuir o
vencimento. Depois acabei por me separar da companheira e comecei a ficar
no Porto.
Entretanto resolveram construir um bairro dos empregados da Carris. Todos os
trabalhadores dos STCP podiam candidatar-se a ir para lá. Até foram lá 2
assistentes sociais fazer um inquérito geral aos trabalhadores mas entretanto
também se foram embora. Eu acabei por não conseguir entrar para o bairro.
Eram só 112 fogos no Vale de Ferreiros em Rio Tinto, e julgo que também
fizeram ali em Ramalde do Meio, mas era um número bastante reduzido para o
número de trabalhadores da empresa.
Em 1962, já tinha rebentado a Guerra Colonial, o custo de vida aumentou e
começamos a pensar em reivindicar aumento de salário. Havia um grupo a
organizar a luta, que era o Domingos Marques, guarda-freio, o Joaquim Marques,
guarda-freio, o Jofre, pintor, o Costa, fiscal, e eu. Reuníamos no Café dos Índios, na esquina da
Rua dos Vanzelleres e 15 de Novembro.
Resolvemos avançar e fizemos 5 concentrações. Era obrigatório que o
Ministério das Corporações, na 5ª concentração fosse informado do que se
passava. Concentrámo-nos 5 dias, com um aparato policial tremendo.
Começámos por nos concentrar na recolha dos eléctricos, mas ao 2º ou 3º dia
já não nos deixaram concentrar lá, e fomos para a Rua 5 de Outubro, para o
Sindicato dos Carros Eléctricos. Éramos cerca de 3.200 trabalhadores e
durante aqueles dias foram-se concentrando uns 600. Uns num dia, outros
noutros. No fim conseguimos o aumento de salário, à volta de 7$ por pessoa.
Depois houve mais outros benefícios.
Lá também tínhamos serviço de alfaiataria, para fazer as fardas. Mas aquilo era
tudo pago, descontavam-nos no vencimento. Também havia barbeiros mas
eles trabalhavam bastante mal e eu não ia lá cortar o cabelo, ia só cortar a
barba.
Depois do 25 de Abril as condições nos STCP alteraram muito. Entretanto, em
1989, tive de vir embora por invalidez. Andei em tratamentos médicos e
melhorei muito desde então.
Serviço Militar
Eu fiz a tropa na Amadora, no Batalhão de Engenhos. Assentei praça a 24 de Março de 1950.
Fui chamado para exame de vista para condução de automóvel e fiquei
reprovado por não ver, mas a minha especialidade era de observador. Eu não
gramava aquilo que era quase como ser marceneiro, muito parado. Depois tive
sorte e lá arranjei de ir para estafeta moto.
Actividade Sindical
Foi nas eleições de 1969 que eu entrei para a comissão de trabalhadores.
Após 1970, os metalúrgicos conquistaram a direcção do sindicato. Nessa altura
já consegui levar uns 12 ou 13 carpinteiros para o Sindicato dos Carpinteiros
para fazer umas reuniões.
Por essa época começou a negociar-se o acordo colectivo de empresa. O
Teixeira Cardoso, que veio de Lisboa, funcionário do Sindicato dos Técnicos de Desenho,
pediu a palavra e disse que não aceitava nada porque não estavam
lá todos os sindicatos. Só que passado meia dúzia de dias a PIDE prendeu-me
e acabaram as reuniões no sindicato, e não sei como a coisa correu.
Fui preso a 28 de Junho, na Rua 5 de Outubro, morava no nº 251, numa
pensão. Apanharam no meu quarto 5 qualidades de jornais: Avante, O Militante,
A Têxtil, A Terra e O Sol. A polícia tinha lá dentro "bufos", um deles
partilhava o quarto comigo. Mas como aquela casa não tinha fechaduras nas
portas, eu afirmei sempre que nada daquilo era meu, que o tinham colocado ali.
E foi isso que me safou.
Casei duas vezes e tive 5 filhos. Nessa altura o meu filho mais velho vivia
comigo. Quando eu fui preso, ele foi viver para a casa do falecido Dr. Sousa e Castro
e depois foi para a casa do Luís Gouveia. Estive lá 55 dias, na Rua do Heroísmo. 45 dias às ordem do Ministério do Interior e uns 10 dias à ordem do
Ministério da Justiça. Fui submetido a espancamentos e à tortura do sono.
Normalmente havia um interrogatório e um espancamento. Depois vinha a
tortura do sono. Às vezes deixavam estar 6 dias em tortura do sono. Era uma
sala com uma mesa pequena com uma cadeira ou um banco, onde tínhamos
de estar. Quando começávamos a dormir vinham os bofetões, uma toalha
molhada na cara.. A 1º vez que me meteram na tortura do sono foram só 5
dias. Foi quando fui preso, entrei de manhã e ao meio dia, quando me serviram
o almoço, já estava um pide ao meu lado para não me deixar dormir. Deram-
me depois um espaço de uns 3 dias e tive novamente tortura do sono, mais 10
dias. Os meus procuradores foram o Sousa e Castro, o Arnaldo Mesquita, o
Augusto Meireles dos Santos e o José Afonso.
Depois disto regressei aos STCP, sem culpa formada, sem julgamento. Por
isso não tive problemas. Tive de pagar para sair da PIDE, e até foi um dos
bufos da PIDE que fez um peditório dentro da empresa para juntar dinheiro.
Um dos bufos que me acusava era um indivíduo a quem eu dava o Avante
todos os meses. Eu dava-lho, mas ele vendia-o à PIDE. Disse-lhes que se ia
inscrever no Partido Comunista, para que eles lhe pagassem a quota. O
dinheiro ficava com ele. A PIDE mandava-lhe 50$00 por mês para pagar a
quota ao partido e 200 mil réis de vencimento pela bufadela.
Fui preso 2ª vez em Novembro de 1972, quando os esquerdistas pararam na
Carcereira e alimentaram a ideia de parar também na Boavista. Quando
chegámos de manhã para trabalhar estava lá a PIDE com umas mesinhas
perguntando-nos um a um se íamos trabalhar ou fazer greve. Eu disse que ia
trabalhar mas houve lá uma confusão, meteram-me na carrinha e fui
novamente para o Heroísmo. Estive lá por volta de uns 8 dias e depois
mandaram-me embora.
A 16 de Abril de 1971 fizemos uma manifestação na Avenida dos Aliados.
Formámos em frente do Café Imperial. Participavam várias comissões de
trabalhadores, era a Comissão de Trabalhadores do Norte. Subimos a Avenida dos Aliados, e quando começámos a curvar na Praça do Município a PIDE cai
sobre nós. Prenderam lá 5 elementos e a manifestação foi dispersa.
Actividade Associativa
Depois das minhas prisões comecei a abster-me de fazer trabalhos
clandestinos. A UNICEPE, que era uma cooperativa livreira legal, estava a
precisar de gente e puseram-me no conselho fiscal. Alugámos uma casa em
Faria Guimarães para abrir uma livraria. Tinha de ter algumas condições
específicas. Tinha uma cave para a gente reunir.
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